TEOLOGIA E REALIDADE SOCIAL (1) - Máriton Lima

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TEOLOGIA E REALIDADE SOCIAL (1)


ASPECTOS PASTORAIS DA EVANGELIZAÇÃO DO MUNDO TÉCNICO

Vou começar, narrando um fato sucedido no interior do Maranhão. O vigário de minha terra é um homem muito santo e paternal. Por longos anos, dirigiu espiritualmente os católicos de minha terra, com dedicação extraordinariamente apostólica. A cidadezinha era pacata e rural, como a maioria das cidades do interior do país. Mas alguns anos atrás ela se transformou num poderoso centro industrial, com todas as características de uma civilização nova.
O bom do vigário foi percebendo aos poucos que aquele povinho já não pensava mais como antigamente. As missas dominicais não atingiam mais a população, os sermões eram criticados, e a pastoral ia-se tornando cada vez menos eficaz.
Eu me lembro muito bem das reflexões de meu vigário sobre esse fato. Na sua concepção, tinha havido uma meta­morfose mais ou menos superficial das condições de trabalho ou do gênero de vida de certo número de individuos daquela cidade.

Características do mundo técnico

Além das conseqüências religiosas acarretadas pela implantação de indústrias nessa cidade, houve outras não menos importantes. Por exemplo: a prefeitura viu-se obrigada a colocar empresas de ônibus para o transporte diário de centenas de operários, que precisavam mobilizar-se dos bairros para o centro urbano e vice-versa.
Mais. Aos poucos se foi notando a introdução cada vez mais crescente de técnicas psicológicas nos meios de trabalho, modificando assim as relações humanas entre comerciantes e consumidores, patrões e operários etc.
Isso significa que houve de fato uma mudança de mentalidade, como pensava o bom do padre. Mas não apenas isso. Ele achava-se diante de uma civilização nova, que nascia debaixo de seus olhos, infelizmente não mais atingida por seu meritório esforço pastoral.      
A nova indústria trouxe consigo muita gente: engenheiros, agentes, técnicos, psicólogos, biólogos, homens de ciência enfim. Quem já conviveu com pessoas de formação técnica deve ter percebido como são diferentes a sua visão do mundo, as suas estruturas mentais, a sua cultura e as suas maneiras de raciocinar.
Como evangelizar esse mundo técnico? Ao que parece a mentalidade técnica, no dia de amanhã, vai ser a inteligência comum, onde se vão fundir as particularidades étnicas, locais, culturais, raciais e outras (2).
Uma pergunta: nós clérigos estamos preparados para evangelizar esse mundo novo, com uma teologia elaborada a partir de uma filosofia aristotélico-tomista? Em outras palavras, estamos nos preparando seriamente para evangelizar o mundo técnico com uma teologia dissociada da vida real?
Em 1830, um padre filósofo apontava esse perigo, quando dizia que não receava confessar que a teologia, tão bela em si mesma, tão atraente, tão vasta, havia se tornado, na maior parte dos seminários, uma escolástcia mesquinha e degenerada, cuja secura desagradava os alunos e não lhes dava nenhuma idéia do conjunto da religião nem das relações maravilhosas com tudo o que interessa ao homem, com tudo o que pode ser objeto de seu pensamento. Lamentava ainda que não era assim que a concebia Santo Tomás que, nas suas obras imortais, fez dela o centro de todos os conhecimentos de seu tempo.  
(Ne craignons pas de l’avouer, la théologie, si belle par elle-même, si attachante, si vaste, n’est aujourd’hui dans la plupart des séminaires, qu’une scolastique mesquine et dégénérée, dont la sécheresse rebute les élèves, et qui ne leur donne aucune idée de l’ensemble de la religion, ni de ses rapports merveilleux avec tout ce qui intéresse l’homme, avec tout ce qui peut être l’objet de sa pensée. Ce n’est pas ainsi que la concevait Saint Thomnas, lui. qui, dans ses ouvrages immortels, en a fait le centre de toutes les connaissances de son temps) (3).
Não estamos em 1830; mas numa época de mentalidade técnico-marxista. Não seria oportuno repensar a nossa teo­logia, para que os futuros pastores de alma possuam indicações seguras e firmes sobre a significação cristã das realida­des terrestres?

TEOLOGIA DAS REALIDADES TERRESTRES

Os valores temporais têm algum sentido dentro do cris­tianismo? Uma passagem de São João parece indicar que o papel do cristianismo é levar todos os homens à filiação divi­na pela luz da fé, na verdade de Cristo, e pela vida da graça, na plenitude de Cristo (4). 0 cristianismo é pois unicamente algo de interior, orientado para a salvação da alma.
Mas qual será então a significação religiosa do trabalho, da técnica, das artes, das sociedades, da cultura, da civiliza­ção, do sexo, da economia?
Outra passagem de São João: "pois quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar" (5).
São João está em jogo. Na primeira passagem, parece insinuar mais o aspecto interior do cristianismo; na segunda, o lado externo, o engajamento temporal do cristão. Vida religiosa e religião vida: eis o problema. (6).
A ciência teológica e as realidades terrestres
G. Thils, no primeiro volume da sua "teologia das realidades terrestres", conta o caso de um artista divorciado que foi perguntar a um sacerdote o valor de sua arte aos olhos de Deus. A resposta foi mais ou menos esta: "Se o senhor não estiver em. estado de graça, a sua atividades não será meritória; ela não pode ser agradável a Deus nem agradar ao Cristo. Se o senhor não mudar de vida, a sua arte e o senhor irão para o inferno" (7).
Voltemos ao problema: as realidades terrestres são ou não são também objeto da teologia?
Os teólogos falam às vezes de verdades formalmente reveladas. Formalmente significa que o objeto dessa reve­lação está contido tal qual nos livros inspirados. Quando por exemplo São João nos diz que o "Verbo se fez carne e habitou entre nós" (8), podemos concluir que a encarnação do Verbo é uma verdade formalmente revelada. Ao lado destas ver­dades, há outros conhecimentos que a razão pode deduzir, partindo de duas verdades reveladas adotadas como premi­ssas, ou também chegar a um conhecimento, partindo de uma verdade revelada e de outra conhecida pela razão (9). 0 re­sultado desse silogismo chama-se tecnicamente conclusão teológica. E é sabido pela teologia que as conclusões teo­lógicas podem constituir, no seu conjunto, a ciência teoló­gica estritamente dita. Basta citar a parte da mariologia que trata da santidade positiva e negativa da Virgem Maria, bem como a teologia dos dons preternaturais.
Conforme G. Thils, o simples fato de Deus nos fazer con­hecer toda a sua sabedoria da vida, sua concepção do ho­mem, seu respeito pelo trabalho significa igualmente que Ele quer que toda a concepção da vida seja regrada segundo o seu pensamento, que toda a filosofía se inspire nos seus prin­cípios fundamentais, que toda a expressão do pensamento se submeta às suas verdades (10).

Universalismo da revelação bíblica

0 Antigo Testamento atribui a Deus todos os fenôme­nos da natureza: a chuva, o bom tempo, a geada, o frio e a tempestade. Embora essa maneira bíblica de ver as coisas não seja muito exata filosoficamente, a vida religiosa não se empobrece, pois afinal de contas tudo depende de Deus. Se é verdade que Deus é o arquiteto de tudo (11), o ser, a ação, a vida, o trabalho, as sociedades humanas, o sexo, a econo­mia, o tempo etc., tudo tem sentido diante de Deus (12).
Universalismo da síntese teológica medieval
Aliás essa foi a linha da síntese teológica medieval (13). Detentores da verdade cristã recebida dos Padres Apostólicos, os teólogos medievais perceberam bem cedo que essa verdade cristã perigava, pois uma sabedoria antiga e pré-cristã mantinha suas zonas de influência, ameaçando estendê-las.
Compreendendo genialmente que um cataclismo sacu­diria a civilização, se dois pensamentos totais, se duas conce­pções da vida e do universo se desenvolvessem lado a lado, Santo Tomás elaborou uma síntese transcendente, incluindo as verdades conhecidas pela razão e as verdades eternas que o Verbo encarnado trouxe aos homens. E o seu critério era ver qual o pensamento de Deus relativo ao mundo, quais os seus desejos sobre as realidades terrestres, qual o ideal temporal que Jesus quis ver realizar-se na terra (14).
Essa obra monumental do Aquinate deveria servir de exemplo para uma nova síntese teológica, pois estamos vivendo uma época técnica, em que o homem é explorado por dois sistemas econômicos igualmente materialistas (15). Só assim, nessa nova perspectiva é que a teologia será de fato uma sabedoria verdadeira, e não apenas "uma ciência deci­frável por alguns iniciados, instalados fora da vida cotidia­na" (16), e dissociados do mundo real.
Nessa perspectiva de Santo Tomás, a teologia dará de fato uma visão do mundo, penetrando nos céus, sem perder de vista a terra. Nada lhe escapará, pois ela conhece a Deus e, unida a Ele, olhará toda a realidade, aos olhos de Deus.

TEOLOGIA DA TÉCNICA (17)

Antes de mais nada, devo precisar o que entendo pela palavra "técnica". Para algumas pessoas, a expressão "mun­do técnico" lembra imediatamente laboratórios com máqui­nas muito barulhentas e complicadas, dirigidos por engenhei­ros e por homens teórico-práticos de formação técnica.
A meu ver, o mundo técnico não é apenas essa pequena parte da população ativa. Mundo técnico é a civilização em que vivemos atualmente; ela é mais diferente da civilização ocidental do século passado do que o eram na época as ci­vilizações francesa e chinesa. Basta pensar por exemplo na influência de certas nações privilegiadas sobre os países subdesenvolvidos, para ter uma idéia da expansão da civilização técnica no mundo de hoje.
Fazendo uma teologia da técnica, considero o mundo técnico no que ele é, no que faz e no seu conteúdo objetivo e original; naquilo que o põe em relação com o desígnio de Deus sobre o mundo, examinando o seu papel na históra.
É certo filosoficamente que Deus é a causa eficiente pri­meira do ser criado; não é menos certo que as criaturas são também causas eficientes principais. Querendo ressaltar a soberania de Deus, os autores do Antigo Testamento não dis­tinguiram bastante as causas eficientes do ser criado, deixando na sombra a causa segunda. Em nossos dias, a causa primeira é que ficou esquecida.
Partamos do fato histórico revelado (18) da criação do mundo e do dogma da providência (19).
O artista demonstra a sua capacidade criadora e rea­lizadora, ao produzir um objeto. Isso nos leva a pensar que o mestre supremo das inteligências criadas é igualmente mestre da inteligência produtora do artista. Sendo assim, as obras da técnica dependem essencialmente de Deus, pois Ele é o criador de todas as coisas (20), sustentando-as na existência.
Nesse modo de ver, não somente são criaturas de Deus os lírios do campo ou o cedro do Líbano, mas também os aparelhos de rádio, o piano de cauda, os relógios e os violi­nos. No plano da causalidade segunda, essas obras dependem do homem; no plano da causalidade primeira, dependem es­sencialmente de Deus. Por isso é que as obras valorizadas pela técnica têm duplo fim sobrenatural: glorificar a Deus e. servir ao homem.
Todo o progresso técnico é proveniente do esforço produ­tivo do homem. E o trabalho sempre traz consigo a fadiga e o suor do rosto, tornando o labor um combate doloroso. Se ele  for  vivido no entanto em união ao sacrifício de Cristo, o trabalho técnico.poderá vir a ser poderoso meio de redenção; foi Cristo quem. deu um sentido ao esforço humano, desacreditado na antiguidade.           
Acontece porém que a técnica em si não tem esse aspecto doloroso, a ser inserido na perspectiva de expiação em união com Cristo. Ela é meio de expressão da atividade criadora do homem. Tanto assim que a transformação dos metais poderá ter um caráter criador mais maravilhoso que o próprio ato de sua conservação na existência. .            Essa visão demiúrgica é mais consentânea com o progresso da ciência, pois a técnica é uma vitória contínua sobre o mundo, um meio de libertação do homem. Se Deus criou  o            mundo do nada, a técnica continua a ação criadora de Deus (21). Dominando as forças da natureza, o homem da técnica colabora com Cristo no tempo, participando na sua atividade terrestre.
É revelado que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança (22). Transformando o cosmos, que era simples vestígio do Ser supremo, a técnica vai fazendo esse mundo material um pouco mais imagem do Deus da  revelação, que é puro espírito.
Demasiado otimista, essa visão da técnica como domínio da matéría pode correr o risco de acentuar demais o papel da criação continuada, deixando de lado o homem, que é a razão de ser do próprio universo.
Eis o problema. Que esperança anima o homem, ao pro­curar utilizar melhor os recursos naturais? Por que a técnica visa assegurar ao homem a satisfação de todas as suas neces­sidades temporais?
Saindo das mãos de Deus, o homem tende a voltar a Deus. Sua história desenrola-se entre a criação e a esca­tologia: criação do homem por Deus e volta do homem para Deus.
Nessa visão escatológica, a. civilização técnica integra os valores de uma. esperança humana, que permite ao homem de se realizar como homem. Ela se apóia antes de tudo nas suas forças humanas, nas suas possibilidades e na sua inteligência. Dá ao homem mais confiança em si mesmo e nas riquezas naturais, que Deus lhe colocou à disposição.
Essa perspectiva é bastante rica, pois assume o que a técnica tem de sacrifício e de oferta, bem como o que ela tem de acabamento do universo criado. Além do mais, o ho­mem da técnica, ao dominar o mundo material, inicia na terra aquele reinado final sobre o universo: o reinado dos elei­tos com o Cristo. Em palavras mais claras, o homem da téc­nica faz a consagração do mundo a Deus, ao utilizar racio­nalmente as suas riquezas e ao dominar progressivamente a natureza.

ACAO PASTORAL NO MUNDO TÉCNICO (23)

Uma pastoral realista diante do mundo técnico deve primeiramente reconhecer o fato de que o mundo se vai uni­ficando hoje em dia no plano das técnicas. Essa tomada de consciência é muito importante, porque o mundo técnico é realmente um fato de civilização. A sua evangelização exige um esforco missionário semelhante àquele que a Igreja ou­trora fez, ao enviar missionários para a Ásia e para a África.
Esse, a meu ver, o ponto de partida. O planejamento pastoral não pode esquecer de forma alguma esse homem no­vo da civilização técnica, que é bastante diferente dos nos­sos católicos comuns, de cultura secundária.
Antes de mais nada, o homem da técnica não gosta de filosofar. Os problemas que ele se coloca não visam a razão última das coisas, mas se põem sempre no plano das causas segundas. Ordinariamente isso pode vir a ser uma dificul­dade no diálogo pastoral, pois de modo geral os clérigos só temos uma cultura literária de tipo filosófico-teológica. No desastre de uma ponte por exemplo o técnico não se preo­cupa em saber porque Deus permitiu isso; outros detalhes lhe interessam muito mais. Sabendo que os cálculos se baseiam em dados prováveis, para ele o desastre da ponte não passará certamente de um erro de cálculo.
Habituado a confiar em especialistas de outras discipli­nas, como os outros confiam na sua, ele geralmente remete para o teólogo os problemas relativos à fé e à religião. E a experiência vem demonstrando (24) que é necessário obrigá-­lo a sair de seu mundo fechado e se propor o problema da fé, para poder evangelizá-lo.
Vivendo intensamente a sua aventura humana, psicolo­gicamente o homem da técnica está satisfeito. Quando ele admitir que a fé é transcendente e que as verdades da fé não se demonstram, ele não se preocupará mais com a pseudo-incompatibilidade de sua ciência humana com os da­dos da fé.
Mas o missionário do mundo técnico deve preparar-se bem para a evangelização. O homem técnico vive entusias­mado com as últimas conquistas científicas. Ele vibra ao ver o caravelle passar voando rápido e não perde a espe­rança de, num futuro bem próximo, poder passar na lua o seu fim de semana com os amigos. Para esse tipo de homem, que significado tem a encarnação, se ordinariamente a reli­gião se apresenta como a negação dos autênticos valores hu­manos, aos quais ele está ligado por todas as fibras do seu ser: a eficácia, a organização, o sucesso, a produção de ri­quezas, a organização racional do mundo, a previsão cientí­fica?
Isso significa que o missionário do mundo técnico deve saber concordar os dados da fé com as certezas científicas; mas o seu fracasso será inevitável, se apenas ele se acomo­dar sumariamente ao contexto atual das fórmulas teológi­cas elaboradas em séculos passados.
Vívendo num ambiente que só admite verdades verifica­das experimentalmente, o missionário do mundo técnico deve levá-lo a fazer a experiência da vida cristã. Do contrário, as verdades adquiridas intelectualmente se revelarão incapazes de lhe animar a vida e, a seus olhos, elas não passarão de hipóteses mais ou menos prováveis.
Outro problema a ser levado em conta é a experiência cristã, que normalmente se faz numa comunidade: a igreja. O padre deve ter aqui muita compreensão. Pois o homem da técnica está habituado a ir ver no local, a viajar para en­contrar o interlocutor competente; além disso, morando ra­ramente nas proximidades imediatas de seu lugar de tra­balho e sentindo a necessidade de mudar de ar no domingo, ele não se enraíza facilmente na paróquia de seu lugar de residência, mudando de domicílio geralmente todos os 3 ou 4 anos.
Até a pastoral litúrgica muitas vezes é um entrave para esse tipo de pessoas. Habituado a um realismo positivo e à seriedade na gerência dos negócios, o homem da técnica não raro se sente mal, ao participar no mistério litúrgico. Tendo admitido intelectualmente verdades tão transcendentes, ele se constrange ao vê-las apresentadas num contexto tão miserável: cantos mal ensaiados, leituras não muito preparadas, acompanhamentos hesitantes, movimentos mal sin­cronizados e homilias mais ou menos improvisadas. Além do mais, a liturgia baseia-se em símbolos, que deveriam su­gerir as realidades espirituais; mas para o técnico, que só conhece sinais algébricos, puramente abstratos e unívocos, tais símbolos lhe parecerão mais ou menos ambíguos, frou­xos e imprecisos.
0 missionário do mundo técnico não deve perder de vis­ta essa dificuldade: a pastoral litúrgica, sem cessar, faz re­ferência a acontecimentos do passado; o homem da técnica está vivendo sempre uma época antecipada.
A evangelização do mundo técnico exige que os seus problemas sejam examinados à luz da fé, a partir da vida. É pela vida presente, vivida cristamente, que nos inserimos na história da salvação: olhos voltados para o Cristo, que so­freu sob Pôncio Pilatos, e que está atualmente na glória ce­leste. Essa me parece dever ser a missão da ação católica especializada no meio técnico.
Para terminar, quero dizer que de fato a evangelização do mundo técnico tem muitas exigências realmente. Isso não é motivo de tristeza, porque a técnica é obra de Deus. Conforme o Concilio Vaticano I (25), o mundo foi criado para manifestar a glória de Deus.
Se as perfeições humanas são reflexos da perfeição divina, o mundo técnico é um louvor permanente a Deus. Nessa perspectiva, só nos resta aceitar a técnica e aproveitá-la para melhor servir a Deus  porque, conforme S. Paulo, tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus(26).

Máriton Silva Lima
Viamão (RS), Brasil

Obs.:
Este artigo foi publicado na revista chilena Pastoral Popular nº 72, de novembro-dezembro de 1962.
Trata-se de trabalho escolar que o autor escreveu, quando estava cursando o quarto ano de teologia no Seminário Nossa Senhora da Conceição de Viamão (RS).
                                                         N O T A S:
1) 0 título deste trabalho foi inspirado na obra de G. Thils, Théologie des Réalités Terestres, Desclée, Paris, 1946, cujo 3° tomo  tem o título:Théologie et Réalité Sociale.
2) F. Malley, Sociologie Religieuse et Apostolat, in Economie et Humanisme, n° 115, supplément annuel, 1958, pág. 49.
3) G. Bardy, L’enseignement de la théologie en 1830, in La Vie Intelectuelle, janvier 1930, pg. 179.
4) Jo. 1, 12-17.
5) 1 Jo. 4, 20.
6). Ver a propósito A. Rademacher, Religião e Vida, Aster, Lisboa, 1946, col. Efeso, n° 15.
7) G. Thils, Theologie des Réalités Terestres, Desclée, París. 1946, pág. 34.
8) Jo. 1, 14.
9) Para estas distinções, cf. Schmaus, Teología Dogmática 1, Rialp, Madrid, 1960, pág. 90.
10) G. Thils, op. cit., pg. 62.
11) Hebr. 3, 4.
12) 0 saltério por si só bastaria para demonstrar o universa­lismo da revelação bíblica, o seu lirismo religioso, a empresa uni­versal da causalidade divina (Sl. 91, 104,119).
13) G. Thils, op. cit. pág. 113.
14) S. th., I, q. 65, a. 2, in corp.; I, q. 70, a. 2, ad 4; 1, q. a. 2, in corp.
15) Essa nova síntese está sendo elaborada atualmente pelo cen­tro de estudos Economie et Humanisme. Partindo do fato de que o homem está sendo explorado em todo o mundo pelos regimes eco­nômicos capitalista e comunista, Economie et Humanisme quer contribuir na instauração de um mundo mais humano, esforçando-se por definir as bases de uma civilização, que põe os imensos recur­sos naturais e culturais do mundo moderno a serviço de todos os homens. Seus objetivos são: dirigir as técnicas, orientar a economia em função das necessidades, assegurar a promoção do homem, ao mesmo tempo quer o desenvolvimento econômico, e permitir o jogo das verdadeiras solidariedades humanas.
E. H. difunde sua doutrina por sua revista (Economie et Humanisme), por suas sessões, por suas obras e pela formação de técnicos para ajudar os países subdesenvolvidos. Os principios de E. H. são internacionalmente conhecidos através do I.R.F.E.D. Sua nova revista é: "Développement et Civilisations".
Eis algumas de suas obras: Au contact des Forces Vivantes, Aspects de l’U.R.S.S., Pour une éconemie des besoins, Agriculteurs et Techniciens, Famille et Monde Moderne, Pour une Démocratie économique, La propriété en question?, Manifeste pour une civilisation solidaire (Livraria Duas Cidades).
16) G. Thils, op .cit., pág. 127.
17) V. de Couesnongle, Signification chrétienne du Travail, in Economie et Humanisme, n° 128, sept.-oct. 1960. Nesse artigo, V. de Couesnongle acha que não se pode fazer uma teologia, conside­rando o trabalho, simplesmente como expiação do pecado. Baseado nesse artigo é que elaborei uma teologia da técnica, acrescentando a visão expiadora às perspectivas demiúrgica e escatológica.
18) Gn. 1, 1.
19) H. Denzinger, Enchiridion Symbolorum, definitionum et declarationum de rebus fidei et morum, Herder, Friburgo, 1955, n° 1784.
20) Hebr. 3, 4.
21) Gn. 1, 28.
22) Gn. 1, 27.
23) T. Suavet, Peut on porter l’Evangile aux monde scientifi­que et technique? in Parole et Mission, n° 13, avril 1961. Nesse artigo o autor faz uma análise das características do mundo técnico e dos obstáculos que o homem da técnica encontra para receber a fé. T. Suavet observa algumas constantes psicológicas desse mundo, que se deverá levar em consideração. Inspirei-me nesse artigo, ao elaborar algumas notas de pastoral perante o mundo técnico.
24) T. Suavet, art. cit., pa. 251.
25) H. Denzin.ger, op. cit., n° 1805.
26) 1 Cor. 3, 23.
 
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